Qualquer executivo de uma grande corporação reconheceria a estrutura no documento. Há um conselho deliberativo de elite, uma corregedoria interna, um setor de relações jurídicas, uma diretoria financeira e, bem ao lado, um departamento inteiramente dedicado à comunicação em redes sociais e à gestão de mensagens criptografadas. A diferença é que o organograma em questão não foi elaborado por uma consultoria de governança corporativa, mas pelo Departamento de Inteligência da Polícia Civil de São Paulo, e descreve com precisão cirúrgica a estrutura do Primeiro Comando da Capital, o PCC.

O relatório, produzido pelo Dipol e divulgado em fevereiro de 2026, representa o mais detalhado radiografamento já feito da hierarquia da facção. Ele aponta mais de cem integrantes distribuídos em catorze setores operacionais, que a organização denomina internamente de "sintonias". A metodologia interna ecoa, de modo perturbador, o vocabulário do direito societário e da administração de empresas: há departamentos com missões claramente delimitadas, linhas de reporte definidas e mecanismos de controle que lembram as exigências da Lei das Sociedades Anônimas no que diz respeito à fiscalização de condutas.

"A estrutura atual permite à organização preservar eficiência operacional mesmo com parte significativa de seus líderes encarcerados."

No vértice da estrutura permanece Marco Willians Herbas Camacho, o Marcola, detido na Penitenciária Federal de Brasília e considerado o mandante de última instância de toda a cadeia hierárquica. Ao redor dele, o documento da Polícia Civil identifica a chamada Sintonia Final, descrita como o núcleo máximo de deliberação estratégica da organização. A cúpula conta com ao menos quinze integrantes formalmente mapeados, dos quais apenas um permanecia em liberdade no momento da elaboração do relatório.

Qualquer executivo de uma grande corporação reconheceria a estrutura no documento. Há um conselho deliberativo de elite, uma corregedoria interna, um setor de relações jurídicas, uma diretoria financeira e, bem ao lado, um departamento inteiramente dedicado à comunicação em redes sociais e à gestão de mensagens criptografadas. A diferença é que o organograma em questão não foi elaborado por uma consultoria de governança corporativa, mas pelo Departamento de Inteligência da Polícia Civil de São Paulo, e descreve com precisão cirúrgica a estrutura do Primeiro Comando da Capital, o PCC.

O relatório, produzido pelo Dipol e divulgado em fevereiro de 2026, representa o mais detalhado radiografamento já feito da hierarquia da facção. Ele aponta mais de cem integrantes distribuídos em catorze setores operacionais, que a organização denomina internamente de "sintonias". A metodologia interna ecoa, de modo perturbador, o vocabulário do direito societário e da administração de empresas: há departamentos com missões claramente delimitadas, linhas de reporte definidas e mecanismos de controle que lembram as exigências da Lei das Sociedades Anônimas no que diz respeito à fiscalização de condutas.

"A estrutura atual permite à organização preservar eficiência operacional mesmo com parte significativa de seus líderes encarcerados."

No vértice da estrutura permanece Marco Willians Herbas Camacho, o Marcola, detido na Penitenciária Federal de Brasília e considerado o mandante de última instância de toda a cadeia hierárquica. Ao redor dele, o documento da Polícia Civil identifica a chamada Sintonia Final, descrita como o núcleo máximo de deliberação estratégica da organização. A cúpula conta com ao menos quinze integrantes formalmente mapeados, dos quais apenas um permanecia em liberdade no momento da elaboração do relatório.

O Quadro dos 14: o tribunal interno

Um dos elementos que mais chamou a atenção dos investigadores é o chamado Quadro dos 14, descrito no documento policial como uma "instância de elite" dentro do organograma do PCC. Trata-se, na linguagem do direito penal, de um verdadeiro tribunal paralelo: o órgão é responsável por julgar, sancionar e fiscalizar o cumprimento das normas internas da facção, especialmente no âmbito das operações em liberdade. A analogia com um conselho de ética ou com um comitê disciplinar de uma associação profissional não é fortuita; os investigadores a fazem explicitamente ao longo do relatório.

A prática de deliberação interna, chamada pelos membros de "tabuleiros", permite à organização resolver litígios e impor sanções sem recorrer ao sistema judiciário estatal. Na perspectiva do direito processual, configura o exercício clandestino de jurisdição, tipificado no ordenamento jurídico brasileiro sob diversas capitulações da Lei das Organizações Criminosas e do Código Penal. Para os investigadores, a existência de tal mecanismo demonstra que a facção internalizou lógicas de governança corporativa ao ponto de replicar a estrutura do Poder Judiciário dentro de sua própria burocracia.

Nota de Contexto Jurídico

A existência de uma instância interna de julgamento e sanção é, por si só, elemento suficiente para caracterizar organização criminosa nos termos do artigo 1.º da Lei 12.850/2013, independentemente das infrações penais praticadas. O Ministério Público de São Paulo estima que o PCC movimenta cerca de R$ 10 bilhões por ano.

O Setor do Raio-X: auditoria interna do crime

Outro setor que impressionou os analistas do Dipol foi o denominado Setor do Raio-X. Identificado como uma espécie de corregedoria interna, a estrutura tem como atribuição auditar as contas de cada departamento da facção, monitorar o comportamento dos integrantes e investigar condutas desviantes em relação às normas do grupo. No jargão do compliance corporativo, seria um departamento de auditoria interna combinado a uma ouvidoria. Segundo o documento, o setor seria chefiado por um integrante identificado pelo codinome Quadrado.

A criação de uma estrutura com estas características revela uma sofisticação organizacional que transcende o modelo de quadrilha tradicional. Nas palavras dos próprios investigadores, a existência desse mecanismo "demonstra um nível elevado de controle organizacional, semelhante ao funcionamento de estruturas administrativas formais". Do ponto de vista do direito empresarial, a analogia mais precisa seria a de um departamento de conformidade e integridade, presente nas grandes corporações em cumprimento à Lei Anticorrupção e às exigências dos programas de governança corporativa.

A sintonia digital: redes sociais como instrumento de poder

Entre as novidades reveladas pelo relatório de inteligência, a criação da Sintonia Interna da Internet e Redes Sociais concentrou especial atenção dos investigadores. O setor tem, segundo o documento, ao menos três atribuições distintas: gerenciar as comunicações entre integrantes por meio de aplicativos e e-mails criptografados; monitorar as publicações em redes abertas que possam expor a organização; e difundir diretrizes internas para manutenção da chamada "unidade ideológica" do grupo. Na prática, o setor funciona como uma assessoria de comunicação e um serviço de contrainteligência digital integrados numa única estrutura.

A existência desse departamento evidencia que o PCC compreendeu, antes de muitas instituições legítimas, o potencial das redes digitais como vetor de risco e de controle. A preocupação com a gestão de imagem e com o sigilo das comunicações internas não é trivial: investigações recentes demonstram que conversas vazadas em aplicativos de mensagens foram determinantes para a desarticulação de operações e para a identificação de lideranças. A resposta organizacional do PCC foi criar um setor permanente dedicado a mitigar esse risco.

A Sintonia dos Gravatas: o braço jurídico

Talvez nenhum outro departamento do organograma evidencie tanto a sofisticação estrutural da organização quanto a chamada Sintonia dos Gravatas. O setor é descrito pelos investigadores como o braço jurídico do PCC, responsável por prestar serviços legais e ilegais, coordenar a atuação de advogados vinculados à facção e servir como canal de transmissão de ordens entre as lideranças presas e as estruturas em liberdade. O nome, que alude à vestimenta profissional dos operadores do direito, revela uma consciência acintosa do papel estratégico que a advocacia pode desempenhar na preservação da estrutura criminal.

Do ponto de vista do direito penal, a infiltração de profissionais da advocacia em estruturas criminosas levanta questões complexas relativas ao sigilo profissional, à responsabilidade do advogado e aos limites impostos pelo Estatuto da Ordem dos Advogados do Brasil. As investigações não implicam, evidentemente, a advocacia como categoria, mas apontam para a necessidade de instrumentos regulatórios mais rigorosos na prevenção à lavagem de dinheiro por parte de profissionais liberais, como já preconizava há anos o Grupo de Ação Financeira Internacional (GAFI).

Associados e a zona cinzenta do direito penal econômico

O relatório vai além do mapeamento dos quadros tradicionais da facção e inclui, pela primeira vez de forma tão detalhada, a figura dos chamados "associados": indivíduos que orbitam a organização sem necessariamente integrá-la formalmente, mas que, segundo os investigadores, prestam serviços e mantêm vínculos funcionais com a estrutura criminosa. Entre os nomes citados nessa categoria está o empresário Mohamed Hussein Mourad, o Primo, investigado pela Operação Carbono Oculto por suposto envolvimento em esquema de fraudes bilionárias no setor de combustíveis.

Mourad nega qualquer ligação com o PCC, e sua defesa sustenta que provará sua inocência. A inclusão de seu nome no documento policial, porém, ilustra a crescente atenção do Ministério Público e da polícia judiciária ao chamado "colarinho branco" do crime organizado: o segmento da cadeia criminosa composto por agentes com trânsito no mundo empresarial, capazes de operar a legalização dos recursos ilícitos por meio de estruturas societárias aparentemente regulares. Na dogmática penal, trata-se do nó mais difícil de desatar no combate à criminalidade organizada, porque exige a prova de liames subjetivos entre o mundo formal e o informal.

"O modelo segmentado, com departamentos especializados e cadeia hierárquica definida, representa um desafio adicional para as autoridades."

A permanência do poder: governar preso

Um dos aspectos mais reveladores do documento é a demonstração de que a encarceração da maioria das lideranças não resultou no enfraquecimento da cadeia de comando. Dos mais de cem integrantes mapeados no organograma, 52 estão presos, muitos em presídios federais de segurança máxima. Apesar disso, a estrutura funciona com eficiência operacional preservada. A separação formal entre a Sintonia Final, responsável pelas operações externas, e a Sintonia Final do Sistema, dedicada ao controle dentro das unidades prisionais, demonstra que a facção projetou sua arquitetura institucional exatamente para resistir à pressão do encarceramento.

Para os especialistas em direito de execução penal, o fenômeno coloca em xeque a eficácia isolada do isolamento físico como instrumento de neutralização de lideranças criminosas. O debate sobre a efetividade do regime disciplinar diferenciado e sobre a necessidade de aprimoramento dos mecanismos de inteligência penitenciária ganha renovada urgência à luz do que o relatório do Dipol demonstra: uma organização capaz de operar com a mesma racionalidade burocrática de uma empresa multinacional, independentemente de onde estejam seus executivos.

O Estado brasileiro responde com instrumentos jurídicos cada vez mais sofisticados, entre os quais a Lei das Organizações Criminosas, a Lei de Lavagem de Dinheiro e os mecanismos de colaboração premiada. A corrida entre as capacidades investigativas do Estado e a capacidade de adaptação do PCC, porém, está longe de ter um vencedor definido. O que o novo organograma deixa claro é que, nessa disputa, o adversário aprendeu as regras do jogo corporativo melhor do que muitos suspeitavam.