Na manhã desta quarta-feira, 4 de março de 2026, a Polícia Federal deflagrou a terceira fase da Operação Compliance Zero e voltou a prender Daniel Vorcaro, controlador do Banco Master, em sua residência em São Paulo. A medida privativa de liberdade, de natureza preventiva, foi autorizada pelo ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal, em um inquérito que apura suposta prática dos crimes de corrupção, lavagem de dinheiro, ameaça e invasão de dispositivos informáticos por organização criminosa. Além de Vorcaro, o empresário Fabiano Campos Zettel, seu cunhado, também foi alvo da operação e se entregou voluntariamente à Polícia Federal. No total, foram cumpridos quatro mandados de prisão preventiva e quinze de busca e apreensão nos estados de São Paulo e Minas Gerais, com apoio operacional do Banco Central do Brasil. A ação representou, ainda, a primeira decisão do ministro André Mendonça como novo relator do caso, cargo que assumiu após a saída de Dias Toffoli da condução das investigações.

O Histórico da Operação: Da Primeira à Terceira Fase

A Operação Compliance Zero teve sua primeira fase deflagrada em 18 de novembro de 2025, quando a Polícia Federal foi às ruas para combater, segundo a corporação, a emissão de títulos de crédito falsos por instituições financeiras. Na ocasião, Vorcaro foi detido no Aeroporto Internacional de Guarulhos quando tentava embarcar em seu jatinho particular com destino a Dubai, nos Emirados Árabes Unidos. O empresário foi solto dez dias depois, em 29 de novembro, após decisão da desembargadora Solange Salgado da Silva, do Tribunal Regional Federal da 1ª Região, que revogou a prisão preventiva e impôs medidas cautelares alternativas, entre as quais o uso de tornozeleira eletrônica, recolhimento domiciliar em horários determinados e vedação ao exercício de atividades no setor financeiro. Em 14 de janeiro de 2026, a segunda fase da operação ampliou o foco investigativo para fundos de investimento ligados à Reag Investimentos, suspeitos de terem sido utilizados para movimentar recursos e adquirir ativos sem valor de mercado, mascarando prejuízos e conferindo aparência de legalidade a operações irregulares. Nessa etapa, Vorcaro não foi preso, mas seus endereços foram vasculhados e seus bens bloqueados.

O Esquema Investigado e os Bilhões em Risco

No centro das investigações da Operação Compliance Zero está um sofisticado esquema de engenharia financeira fraudulenta que teria colocado em risco a integridade do Sistema Financeiro Nacional. De acordo com a Polícia Federal, o Banco Master teria fabricado carteiras de crédito insubsistentes, isto é, títulos de crédito sem lastro econômico real, e os teria vendido a outras instituições financeiras, entre elas o Banco de Brasília, como se fossem ativos legítimos. O artifício, segundo os investigadores, teria servido para inflar artificialmente as operações da instituição, ocultar prejuízos e perpetuar a captação de recursos junto ao mercado. O montante das supostas fraudes pode alcançar R$ 17 bilhões, cifra que ilustra a dimensão sistêmica do ilícito investigado. Para assegurar a preservação de ativos potencialmente vinculados às práticas apuradas, o STF determinou o sequestro e o bloqueio de bens no valor de até R$ 22 bilhões, além do afastamento imediato de investigados de cargos públicos.

A Saída de Toffoli e a Chegada de Mendonça

A terceira fase da Operação Compliance Zero foi também o primeiro ato jurisdicional de André Mendonça como relator do inquérito do Banco Master no STF, contexto que empresta à decisão uma dimensão institucional adicional. O ministro Dias Toffoli havia conduzido as investigações até fevereiro de 2026, quando solicitou a redistribuição do caso após uma reunião interna convocada pelo presidente da Corte, Edson Fachin, para tratar de um relatório da Polícia Federal que mencionava o nome de Toffoli a partir de dados extraídos do celular de Vorcaro. Os ministros emitiram nota conjunta afirmando não haver fundamento jurídico para declarar suspeição, mas o próprio Toffoli pediu o afastamento citando "os altos interesses institucionais". Com o sorteio interno do processo, Mendonça assumiu a relatoria e, poucos dias depois, autorizou a prisão preventiva do banqueiro investigado, acatando pedido formulado pela Polícia Federal com base em novos elementos probatórios extraídos do dispositivo eletrônico de Vorcaro.

A Liquidação do Master e o Rastro de Consequências

As consequências do colapso do Banco Master sobre o mercado financeiro não se limitaram ao campo penal. No dia seguinte à primeira prisão de Vorcaro, em novembro de 2025, o Banco Central do Brasil decretou a liquidação extrajudicial da instituição financeira, invocando "grave crise de liquidez" e "graves violações" às normas do Sistema Financeiro Nacional. A autoridade monetária havia, antes disso, vetado a aquisição do Master pelo Banco de Brasília, em setembro de 2025, operação que, segundo as investigações, poderia ter servido para encobrir os passivos ocultos da instituição com recursos de um banco público. A liquidação extrajudicial, instituto previsto na Lei n.º 6.024, de 1974, transfere a administração da entidade financeira ao Banco Central, que passa a gerir a massa liquidanda com o objetivo de proteger os credores e minimizar os danos ao sistema. O caso Master tornou-se, nesse sentido, um dos mais graves episódios de ruptura institucional no mercado financeiro brasileiro das últimas décadas.

Compliance como Fachada: O Paradoxo do Nome da Operação

Há uma ironia inscrita no próprio nome da operação: Compliance Zero. O termo compliance, consolidado no vocabulário jurídico e empresarial brasileiro especialmente após a Lei Anticorrupção de 2013, designa o conjunto de mecanismos, políticas e procedimentos internos adotados por organizações para assegurar a conformidade de suas operações com o ordenamento jurídico e com as normas regulatórias aplicáveis. É, em suma, o instrumento por excelência da governança corporativa responsável. Ao nomear a operação de Compliance Zero, a Polícia Federal sinalizou que o que teria existido no Banco Master não era conformidade, mas sua ausência radical: uma instituição que operava sob a aparência de regularidade enquanto, segundo os investigadores, estruturava um esquema sistemático de produção de ativos fraudulentos. O caso coloca em evidência os limites dos mecanismos de supervisão regulatória e reacende o debate sobre a efetividade da fiscalização exercida pelo Banco Central sobre as instituições do sistema financeiro nacional.

Zettel, as Conexões Políticas e o Alcance da Investigação

A entrega voluntária de Fabiano Campos Zettel à Polícia Federal na mesma data em que Vorcaro foi preso acrescentou um capítulo politicamente sensível ao já complexo enredo da Operação Compliance Zero. Zettel ganhou notoriedade nos últimos anos não apenas como empresário, sócio em empreendimentos como a rede Oakberry e a academia de luxo Les Cinq, mas também como o principal financiador das campanhas de Jair Bolsonaro à Presidência da República e de Tarcísio de Freitas ao governo do estado de São Paulo, ambas realizadas em 2022. A dimensão político-empresarial dos investigados amplia o alcance simbólico da operação e alimenta o debate sobre as intersecções entre poder econômico, financiamento político e governança corporativa no Brasil. A investigação, sob a relatoria do ministro André Mendonça no STF, promete revelar nas próximas fases novos elementos sobre a extensão e a capilaridade do esquema apurado.