A política brasileira opera com algumas balizas históricas que, embora não constituam normas jurídicas, funcionam na prática como indicadores tão precisos quanto qualquer diploma legal. Uma dessas balizas é o patamar de aprovação presidencial no ano eleitoral. Desde 2002, todo presidente ou candidato governista que disputou com êxito as urnas brasileiras contava, a esta altura do calendário, com índices de avaliação positiva consistentemente superiores aos que os institutos de pesquisa registram hoje para o atual ocupante do Palácio do Planalto. Com aprovação de governo oscilando entre 33% e 46% a depender do instituto, e rejeição pessoal chegando a 57%, o presidente da República ingressa no semestre decisivo do pré-eleitoral numa posição de fragilidade que não tem precedente entre os mandatários que lograram vencer ou emplacar sucessores desde o restabelecimento das eleições diretas de quatro em quatro anos. O dado é mais do que eleitoral: é um diagnóstico político de um governo que ainda não encontrou o caminho de volta à aprovação majoritária.

A Régua Histórica que Expõe o Problema

O exercício comparativo feito por institutos de pesquisa e analistas políticos é revelador. Em mandatos anteriores do mesmo presidente, a avaliação positiva do governo estava em patamares muito mais confortáveis a sete meses das eleições. Em 2006, a aprovação registrava 38% e, em 2010, quando o então mandatário elegeu sua sucessora, chegava a 75%. O índice atual de 33% de avaliações ótimo ou bom, registrado pela pesquisa Ipsos-Ipec de março de 2026, situa o governo numa faixa que historicamente foi associada não a vitórias, mas a derrotas. "Presidentes com saldo negativo ou avaliação positiva abaixo de 40% nesta fase do mandato não se reelegeram nem elegeram sucessores desde que o ciclo eleitoral atual se estabeleceu." A comparação com os ciclos eleitorais de 2018 e 2022, ambos terminados com a derrota do candidato governista, emerge como referência incômoda para a base aliada.

Os Números que Preocupam o Palácio

A fotografia das pesquisas de março de 2026 é consistente em apontar um cenário adverso, ainda que com variações entre os institutos. A pesquisa da Alfa Inteligência, divulgada em 13 de março, registrou 46% de aprovação contra 53% de desaprovação do governo. O PoderData, por sua vez, apurou números ainda mais preocupantes na avaliação pessoal do mandatário. Com 57% de desaprovação pessoal e apenas 34% de aprovação, o saldo negativo entre aprovação e desaprovação praticamente dobrou em menos de dois anos, passando de 11 para 23 pontos percentuais. :antCitation[]{citations="1bbbaeaf-8a4b-4dd0-9cf3-445bfd90a0ca"} O dado mais relevante desse descolamento é a sua natureza: a rejeição ao presidente avança em ritmo mais acelerado do que a insatisfação geral com o governo, sugerindo que a resistência é mais pessoal do que institucional. :antCitation[]{citations="806c4f86-2a3d-4958-87e1-6e27a1e26f7d"} "Quando a pessoa supera negativamente a instituição que comanda, o problema não é apenas de gestão; é de imagem construída ao longo de décadas que começa a sofrer corrosão estrutural."

O Risco da Biografia e o Dilema da Candidatura

No entorno presidencial, circula uma avaliação que vai além da estratégia eleitoral e toca na dimensão histórica do mandato. A aprovação de 40% é tida como um piso abaixo do qual o presidente ficaria inclinado a desistir da candidatura em 2026, com o objetivo de evitar o risco de uma derrota capaz de manchar sua biografia de sucesso eleitoral. Trata-se do que petistas próximos ao presidente definem como o risco da biografia: uma candidatura com popularidade baixa poderia transformar aquele que venceu três vezes e elegeu sua sucessora em outras duas oportunidades em alguém encerrando a carreira perdendo para um nome da direita. "A disputa eleitoral, para um político com essa trajetória, já não é apenas sobre um mandato; é sobre o capítulo final de um legado que não pode ser encerrado com uma derrota." O dilema é genuíno e não tem resposta fácil nos números atuais.

Fatores que Construíram o Desgaste

O recuo nos índices de aprovação não se explica por um único vetor, mas pela combinação de crises que se acumularam ao longo de 2025 e início de 2026 sem que o governo conseguisse apresentar narrativas eficazes de resposta. Entre os principais elementos de desgaste figuram a percepção de instabilidade econômica, os descontos indevidos no INSS, a confusão na agenda econômica provocada pelo aumento do IOF e a inflação dos alimentos, que afeta diretamente a percepção do eleitor de menor renda. Este último fator é particularmente crítico, pois atinge exatamente o segmento que historicamente constitui a base eleitoral mais sólida do presidente. A aprovação é mais alta entre mulheres, jovens de 16 a 24 anos e moradores do Nordeste, além de eleitores com menor escolaridade e renda familiar entre dois e cinco salários mínimos. :antCitation[]{citations="56206b53-cbf6-41e5-bb47-502df3c5fcee"} "Quando a inflação corrói o poder de compra do eleitor que historicamente sustenta a aprovação presidencial, o cálculo eleitoral muda de forma imprevisível."

Cenários Eleitorais e a Disputa que se Aproxima

No campo das intenções de voto, o quadro é igualmente desconfortável para o governo. Nos cenários de primeiro turno, o presidente oscila entre 31% e 39% das intenções de voto, enquanto a oposição consolida um bloco competitivo com diferentes nomes que avançam consistentemente na série histórica. Em cenários de segundo turno, a vantagem presidencial sobre candidatos da oposição caiu de 15 para 7 pontos em alguns casos, no menor diferencial já registrado. A hipótese de recuperação ainda é sustentada por aliados, que argumentam que a campanha eleitoral e a comparação de cenários podem reverter o quadro. Analistas do campo governista ressaltam que as decisões de voto consideram múltiplos fatores e que a percepção pode melhorar, embora reconheçam que a ausência de novidades fortes no governo dificulta aumentos significativos de aprovação. "A política brasileira já produziu reviravoltas eleitorais em prazo curto, mas jamais o fez sem que o mandatário tivesse conseguido ao menos estabilizar sua aprovação antes de entrar no ciclo de campanha."

Para analistas políticos que acompanham a série histórica das pesquisas brasileiras, o cenário atual é de alerta genuíno, não de colapso irreversível, mas de necessidade urgente de correção de rota. A janela temporal ainda permite que o governo acumule entregas concretas na área econômica e social que revertam, ao menos parcialmente, a trajetória de deterioração da imagem presidencial. O que os números não autorizam é a complacência. Em 2026, o eleitor brasileiro vai às urnas com a percepção formada não pelo que o governo prometeu, mas pelo que entregou. E os índices de março, se confirmados pelos próximos meses, sugerem que a entrega ainda está aquém do necessário para posicionar o presidente na régua histórica dos que saíram vitoriosos das eleições neste século.