O presidente Luiz Inácio Lula da Silva percorreu o Rio de Janeiro nesta sexta-feira, 6 de março de 2026, em uma agenda densa de inaugurações e entregas que serviu, simultaneamente, como vitrine de governo e como palco de sinalização eleitoral. Ao lado do prefeito Eduardo Paes, que deixará o cargo neste mês para disputar o governo do estado nas eleições de outubro, Lula participou de eventos em Santa Cruz, Campo Grande e no Aeroporto Internacional do Galeão. O presidente não deixou dúvidas sobre o campo em que atuará na disputa pelo Palácio Guanabara: em entrevista ao jornal O Dia, declarou explicitamente seu apoio político ao prefeito carioca. Contudo, o endosso veio acompanhado de uma condicionante que esconde mais do que revela: a necessidade de se construir uma aliança eleitoral robusta, capaz de ir além da cabeça de chapa e vencer nas disputas pelo Senado, pela Câmara e pela Assembleia Legislativa fluminense. Nas entrelinhas da declaração presidencial, lê-se a pressão do PT por espaço relevante em uma composição que, até agora, não reservou ao partido posição de destaque.
O Apoio Que Vem Com Preço
Declarar apoio e, na mesma frase, impor condições é uma das marcas do vocabulário político de Lula, cuja habilidade em negociar alianças foi forjada em décadas de disputa eleitoral. "Sobre as eleições, temos que lembrar que não se escolhem adversários, mas sim aliados. Paes tem o meu apoio político e o importante agora é construir uma chapa forte, capaz de vencer não apenas a disputa pelo governo, mas também de conquistar cadeiras no Senado, na Câmara e na Alerj e não deixar que o autoritarismo e o retrocesso voltem a ganhar espaço no Rio de Janeiro e em nosso país." A mensagem foi dirigida simultaneamente à opinião pública, aos aliados de Paes e aos petistas que, nos bastidores, resmungam sobre a marginalização do partido na composição da chapa fluminense. A declaração pública funciona como instrumento de pressão: ao vincular seu apoio à construção de uma aliança ampla, Lula sinaliza que a mera candidatura de Paes não basta; o PT precisa ter assento garantido à mesa.
A Questão do Senado e a Candidatura de Benedita da Silva
O ponto de maior tensão na articulação política fluminense está na definição dos candidatos ao Senado Federal. O PT reivindica com insistência uma vaga para a deputada federal Benedita da Silva, veterana parlamentar e símbolo histórico da sigla no estado do Rio. O problema é que a chapa que Paes vem construindo não manifesta entusiasmo pela candidatura, e o próprio governador Cláudio Castro, do PL, já sinalizou que concorrerá à Casa Alta do Congresso, tornando a disputa senatorial fluminense ainda mais movimentada e disputada. A presença de uma candidata petista ao Senado na chapa de Paes seria, para o PT, a contrapartida mínima pelo sacrifício de não encabeçar a disputa governamental em um estado com mais de 13 milhões de eleitores. Sem essa concessão, as vozes internas que questionam o acordo com o prefeito carioca tendem a se intensificar conforme a eleição se aproxima.
Jane Reis e a Escolha Polêmica da Vice
A decisão de Paes de anunciar a advogada Jane Reis como pré-candidata a vice-governadora em sua chapa gerou desconforto visível entre os aliados petistas. Jane é irmã de Washington Reis, presidente estadual do MDB, ex-prefeito de Duque de Caxias e político com histórico de vínculos com o campo bolsonarista: foi secretário do governador Cláudio Castro e já declarou apoio a Flávio Bolsonaro na disputa eleitoral. Para o PT, incluir na chapa alguém com essas conexões familiares e políticas representa uma contradição ideológica que compromete a narrativa de bloco progressista que o partido deseja projeta. O episódio expõe a natureza essencialmente pragmática da aliança entre PT e PSD no Rio: ela é movida por cálculo eleitoral, não por afinidade programática, e os limites dessa convivência serão testados à medida que as negociações avançarem.
O Rio Que Lula Quer Recuperar e os Cinco Governadores Presos
Durante o evento no Galeão, Lula foi além das declarações eleitorais e adotou um tom que misturou nostalgia e crítica política ao recitar o histórico recente de governança fluminense. A frase que mais ecoou nos meios políticos foi direta e de forte carga simbólica: "Esse estado não merece ter cinco ex-governadores presos. Esse estado precisa de gente séria." A declaração é uma alusão implícita à sucessão de escândalos que marcou a política estadual nas últimas décadas, com ex-governadores como Sérgio Cabral e Anthony Garotinho respondendo a processos e condenações por corrupção. Ao evocar esse passado, Lula tenta posicionar a candidatura de Paes como ruptura com o ciclo de degradação institucional do estado, enquanto consolida a narrativa de que a aliança PT-PSD representa uma alternativa de reconstrução. O argumento tem apelo eleitoral, mas ignora que o próprio campo político que governa hoje o estado, e que será adversário nas urnas, também se construiu sobre essa mesma retórica.
A Estratégia Nacional do PT: Abrir Mão da Cabeça de Chapa
O acordo no Rio de Janeiro integra uma estratégia mais ampla adotada pelo PT para as eleições de outubro de 2026: em estados onde a sigla não tem candidato competitivo para governador, o partido opta por apoiar um aliado mais forte, negociando em contrapartida espaço na composição da chapa para disputas legislativas. Essa lógica de subordinação estratégica já foi aplicada em outros pleitos e tende a se repetir em São Paulo, onde Lula articula convencer o ministro Fernando Haddad a disputar o governo estadual, e no Espírito Santo, onde o deputado Helder Salomão é apontado como candidato ao Palácio Anchieta. No Rio, a equação é clara: o PT abre mão do governo, reivindica o Senado e espera engrossar bancadas na Câmara e na Alerj. O êxito dessa estratégia depende, porém, de Paes honrar os compromissos negociados, algo que os petistas monitoram com ceticismo crescente.
Redes Sociais, Populismo Digital e a Crítica de Lula
Paralelamente ao xadrez eleitoral, o presidente aproveitou a agenda no Rio para reiterar suas críticas ao que chama de "política de palco digital", voltada a políticos que, segundo ele, preferem o alcance das redes sociais à responsabilidade do exercício do mandato. O alvo não declarado, mas transparente, é o bolsonarismo e seus porta-vozes nas plataformas. "Tem gente que gosta de fazer política no TikTok. Tem gente que gosta de fazer política no Instagram. Tem gente que gosta de fazer política mentindo." A crítica tem apelo junto à base petista, mas enfrenta um paradoxo que o próprio governo não conseguiu equacionar: a comunicação digital do PT segue dramaticamente abaixo da eficácia demonstrada pela oposição nas mesmas plataformas que Lula condena. Combater o populismo digital com discursos em palanques institucionais pode ser eleitoralmente insuficiente em 2026, quando a batalha narrativa nas redes pode ser ainda mais determinante do que em eleições anteriores.