A tentativa do Palácio do Planalto de costurar uma aliança eleitoral com o Movimento Democrático Brasileiro para as eleições presidenciais de outubro de 2026 encontrou, no início de março, uma resistência organizada e formalmente documentada. Dezessete dos vinte e sete diretórios estaduais da legenda assinaram um manifesto entregue ao presidente nacional do partido, o deputado federal Baleia Rossi, de São Paulo, no qual requerem que a sigla adote posição de neutralidade na disputa pelo Palácio do Planalto e rejeita, em termos inequívocos, qualquer composição de chapa com o Partido dos Trabalhadores. O movimento representa o mais contundente sinal até agora de que a pretensão petista de ter um nome emedebista como candidato à vice-presidência na chapa de reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva está longe de prosperar junto à base majoritária do partido.
A articulação liderada por Daniel Vilela
O arquiteto da mobilização oposicionista dentro do MDB é o vice-governador de Goiás, Daniel Vilela, presidente do diretório estadual da legenda e herdeiro de uma das mais tradicionais linhagens partidárias do país. Filho do ex-senador e ex-governador goiano Maguito Vilela, que presidiu o então PMDB em 2001, Daniel conduziu pessoalmente a negociação com os demais núcleos regionais antes de se reunir com Baleia Rossi no fim de semana que antecedeu a entrega formal do documento. "Ao menos 70% da convenção do partido é contra uma eventual aliança com o PT pela reeleição do presidente", afirmou o vice-governador, sinalizando que a ala favorável ao entendimento com o Planalto representa minoria expressiva, porém ainda insuficiente para dobrar a vontade da base. Vilela não escondeu a indignação com as circunstâncias que aceleraram o movimento, citando o desfile da escola de samba Acadêmicos de Niterói, que homenageou Lula e incluiu uma ala chamada "família em conserva", interpretada por setores do partido como uma afronta ao campo oposicionista.
O conteúdo do manifesto e seus signatários
O documento entregue a Baleia Rossi é direto em seus termos: defende a independência dos diretórios estaduais para construção de palanques regionais conforme as conveniências locais e rejeita qualquer posicionamento nacional do MDB em favor da candidatura presidencial petista. "Defendemos a independência dos diretórios e do partido de modo geral na eleição presidencial, focando nossas ações prioritariamente nos processos eleitorais regionais e nas composições para as Casas Legislativas", registra o texto. Entre os signatários figuram, além dos presidentes dos diretórios estaduais, nomes de peso como o deputado federal Alceu Moreira, do Rio Grande do Sul, que preside a Fundação Ulysses Guimarães, braço ideológico da legenda, e os prefeitos das duas maiores cidades sob gestão emedebista, Ricardo Nunes em São Paulo e Sebastião Melo em Porto Alegre. Também subscrevem o manifesto o vice-governador gaúcho Gabriel Souza e o vice-governador capixaba Ricardo Ferraço.
A ala governista e o racha interno
A mobilização dos oposicionistas internos escancarou a profundidade da fratura que atravessa o MDB. No campo contrário ao manifesto, concentram-se nomes diretamente ligados ao governo federal: o ministro das Cidades, Jader Filho, o ministro dos Transportes, Renan Filho, e a ministra do Planejamento, Simone Tebet, que apoiou Lula no segundo turno de 2022 e defende abertamente a formalização da aliança com o PT. Renan Filho é um dos nomes apontados nos bastidores palacianos como possível candidato à vice-presidência na chapa petista, ao lado do governador do Pará, Helder Barbalho. A existência simultânea dessas duas alas, uma com assento no Executivo federal e outra comprometida com a oposição regional, revela o dilema histórico de um partido que jamais abdicou da convivência pragmática com governos de diferentes matizes ideológicos.
O mapa dos estados e as fissuras regionais
O levantamento realizado pela própria direção nacional do MDB revela um cenário desfavorável às pretensões petistas: em dezesseis estados, a sigla se posiciona contra o atual governo federal, enquanto apenas onze diretórios manifestam apoio à gestão Lula. Mais relevante do que os números brutos, porém, é o fato de que mesmo nos estados onde o MDB integra formalmente a base governista, há tensões e insatisfações não resolvidas. No Piauí, o partido perdeu a vaga de vice na chapa estadual comandada pelo PT. No Rio Grande do Norte, ficou de fora da composição governamental em favor da União Brasil. Na Bahia e no Ceará, registraram-se atritos semelhantes. "Somos contra um governo que teve diversas oportunidades de promover os avanços que nosso país precisa e acabou entregando somente mais violência, desigualdade social e estagnação econômica", declarou o manifesto, em linguagem que vai além da neutralidade e flerta abertamente com a oposição declarada.
O posicionamento de Baleia Rossi e o futuro da negociação
Diante da pressão majoritária dos diretórios, o presidente nacional da sigla adotou uma postura cautelosa. Baleia Rossi recebeu o manifesto sem se comprometer publicamente com nenhum dos lados, reiterando a tradição do partido de preservar a autonomia dos núcleos regionais na construção de alianças eleitorais. Questionado pela imprensa, o deputado limitou-se a ressaltar que o foco da legenda em 2026 deve estar nas disputas para o Senado Federal e para a Câmara dos Deputados, evitando antecipar qualquer definição sobre a presidencial. Nos bastidores, a percepção crescente entre operadores políticos é de que a perspectiva de ter o MDB na chapa de Lula está praticamente descartada, com o vice-presidente Geraldo Alckmin, do PSB, sendo considerado o nome mais provável para permanecer na posição que ocupa desde 2022.
O histórico da relação PT-MDB e as apostas para 2026
A última vez em que petistas e emedebistas integraram formalmente a mesma chapa presidencial foi em 2014, com a reeleição de Dilma Rousseff tendo Michel Temer como candidato à vice-presidência. A relação terminou em ruptura traumática com o processo de impeachment da petista em 2016, episódio que ainda ecoa nas memórias institucionais do partido e serve de referência obrigatória nos debates internos sobre eventual reaproximação. O cenário que se desenha para outubro aponta para uma nova polarização, desta vez entre Lula e o senador Flávio Bolsonaro, do PL do Rio de Janeiro, com o MDB pressionado pelas suas bases regionais a preservar autonomia estratégica e evitar repetir o caminho que, há uma década, levou à mais grave crise de sua história recente.