O Rio de Janeiro vive, em 2026, um fenômeno político sem precedentes recentes: o estado pode enfrentar dois processos eleitorais distintos no mesmo ano. O primeiro, uma votação indireta conduzida nos corredores da Assembleia Legislativa fluminense, escolherá um governador-tampão para completar o mandato até dezembro. O segundo, realizado pelas urnas em outubro, definirá o próximo mandatário com mandato pleno a partir de 2027. O mecanismo que desencadeou esse cenário atípico é a dupla vacância do Executivo estadual: o vice-governador Thiago Pampolha renunciou ao cargo para assumir vaga no Tribunal de Contas do Estado, e o governador Cláudio Castro prepara sua desincompatibilização para concorrer ao Senado Federal. Sem vice, a Constituição estadual determina que o presidente do Tribunal de Justiça assuma interinamente o governo e convoque, em até 30 dias, uma eleição indireta a ser realizada pelos deputados estaduais. É nesse ambiente de incerteza institucional que Eduardo Paes tenta, ao mesmo tempo, preservar seu favoritismo para outubro e influenciar, pela via indireta, o cenário que encontrará ao disputar o Palácio Guanabara.

O Mecanismo Constitucional e o Vazio de Poder

A sucessão fluminense enfrenta um vazio institucional que o texto da Constituição estadual previu, mas que a política prática transformou em fonte de intensa disputa. Com Castro planejando deixar o cargo até 4 de abril para se desincompatibilizar da obrigação de afastamento, o presidente interino da Alerj, deputado Guilherme Delaroli, é descartado pelos aliados do governador como sucessor natural, uma vez que o entendimento predominante é que ele não estaria na linha sucessória constitucionalmente estabelecida. O caminho, portanto, passa pelo presidente do Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro, que assumiria o governo de forma transitória e convocaria a eleição indireta na Alerj em prazo determinado. "O que decidimos enquanto grupo é que essa definição só será tomada quando tivermos plena segurança jurídica sobre qual regra prevalecerá. Até lá, não haverá precipitação. A decisão será colegiada, construída em consenso, sempre considerando o que for melhor para o projeto do grupo e para o objetivo maior, que é vencer as eleições e manter a governança do estado." A fala de Castro revela que, por trás da retórica institucional, o que está em disputa é o controle da máquina administrativa durante o período pré-eleitoral.

A Estratégia de Paes: Distância da Alerj, Proximidade das Alianças

Eduardo Paes adotou, de forma deliberada, uma postura de afastamento público da disputa interna na Assembleia Legislativa. A leitura de seus interlocutores é que envolver-se no embate pelo governador-tampão representaria um desgaste político desnecessário, especialmente porque o prefeito não dispõe de base parlamentar sólida no Legislativo estadual e uma eventual derrota nessa arena poderia comprometer o favoritismo construído nas pesquisas de intenção de voto para outubro. Ao mesmo tempo, a estratégia silenciosa não significa passividade: Paes articula ativamente a composição de uma aliança ampla para a eleição direta, tendo anunciado a advogada Jane Reis, do MDB, como pré-candidata a vice-governadora, e negociando apoio do Republicanos, sigla ligada ao ex-prefeito Marcelo Crivella. "A pré-candidatura buscará formar uma aliança política ampla e será contraponto ao cenário atual da administração estadual." A estratégia de Paes é clara: chegar a outubro com uma coligação que fragmente o campo adversário, especialmente na Baixada Fluminense e no interior, onde seu nome sofre resistências históricas.

O Campo da Direita e a Disputa Pelo Governador-Tampão

No campo do PL e de seus aliados, a eleição indireta na Alerj não é vista apenas como solução para um problema constitucional: é uma oportunidade estratégica de ocupar o Palácio Guanabara antes do pleito de outubro, com todos os recursos e visibilidade que o cargo proporciona. Dois nomes disputam o protagonismo nesse cenário. O secretário de Cidades Douglas Ruas, filho do prefeito de São Gonçalo e deputado estadual licenciado, é apontado como o preferido de Flávio Bolsonaro e do grupo bolsonarista na Alerj, com a lógica de que chegaria à campanha de outubro já sentado na cadeira de governador. Castro, por outro lado, prefere emplacar o secretário da Casa Civil Nicola Miccione, apresentado como perfil técnico e desprovido de ambições eleitorais próprias, o que garantiria ao governador influência indireta sobre a gestão durante o período de campanha. O impasse entre os dois grupos espelha a disputa pelo controle do espólio político do bolsonarismo fluminense.

A Ameaça Jurídica Sobre Castro e o Efeito Cascata

O xadrez fluminense tem, porém, uma variável de altíssima imprevisibilidade: o Tribunal Superior Eleitoral retomará, em 10 de março, o julgamento do caso Ceperj, que pode resultar na cassação do mandato de Castro e em sua declaração de inelegibilidade. O governador é acusado de abuso de poder político e econômico na eleição de 2022, em razão da contratação, sob suspeita de irregularidade, de servidores que teriam atuado como cabos eleitorais durante o pleito. Uma cassação alteraria completamente o roteiro sucessório: além de remover Castro do cenário antes mesmo de sua desincompatibilização voluntária, tornaria a eleição indireta ainda mais complexa do ponto de vista procedimental. Para Paes, a perspectiva de disputar outubro sem um adversário do campo conservador comandando a máquina estatal é significativamente mais confortável do que a hipótese oposta. A incerteza jurídica sobre o destino político de Castro é, nesse sentido, uma variável que o prefeito carioca monitora com atenção redobrada.

O Ceperj, Bacellar e as Investigações Que Definem o Cenário

Além da ameaça sobre Castro, o cenário eleitoral fluminense foi chacoalhado por uma sucessão de investigações que atingiram figuras-chave do Legislativo e do Judiciário estaduais. O então presidente da Alerj, Rodrigo Bacellar, foi preso pela Polícia Federal e afastado do comando da Casa, o que retirou o principal nome alternativo do campo da direita da linha de frente do debate eleitoral. A detenção de um desembargador do Tribunal Regional Federal da 2ª Região ampliou a percepção de que as instituições fluminenses passam por um ciclo de erosão institucional grave. Para Paes, que constrói sua candidatura sobre o discurso de eficiência administrativa e contraste com a crise de governança estadual, cada investigação que estoura no campo adversário reforça a narrativa de alternância necessária no Palácio Guanabara. O risco, porém, é que a percepção de instabilidade generalizada acabe contaminando toda a classe política, independentemente de filiação partidária.

O Interior do Estado Como Território Decisivo

Toda a arquitetura política que Paes ergue com seus aliados parte de um diagnóstico que o próprio prefeito não esconde: seu nome é competitivo na capital, onde governa com aprovação elevada e detém 40% do eleitorado fluminense, mas enfrenta resistências significativas no interior do estado e na Baixada Fluminense. É precisamente por isso que a escolha de Jane Reis como vice-governadora é dotada de racionalidade eleitoral concreta: ela pertence ao MDB, família política com enraizamento na Baixada, e carrega o sobrenome Washington Reis, ex-prefeito de Duque de Caxias com influência regional consolidada. O PP, segundo partido que mais elegeu prefeitos no estado em 2024, também é cortejado por Paes, que já incorporou ao secretariado municipal Felipe Michel, vereador progressista, como sinalização antecipada de boa vontade. A lógica da composição da chapa, portanto, não é de afinidade ideológica, mas de complementaridade territorial: o prefeito carioca precisa do interior para governar o estado, e está disposto a pagar o preço político por isso.

Democracia Representativa ou Escolha de Gabinete?

Há uma dimensão democrática no debate sobre a eleição indireta que raramente emerge com franqueza nos corredores palacianos: a escolha de um governador pelos deputados estaduais, longe das urnas e dos eleitores, é um mecanismo previsto na Constituição, mas que nenhum ator político fluminense ousaria apresentar como o método preferível de formação de poder. O Rio de Janeiro já produziu cinco ex-governadores presos, como recordou o próprio presidente Lula, e o fato de que o tabuleiro eleitoral de 2026 seja definido, em parte, por votações nos corredores da Alerj e por julgamentos no TSE, antes mesmo de uma campanha formal, revela a fragilidade das instituições políticas fluminenses. Para Paes, navegar nesse ambiente exige equilíbrio entre a preservação da legitimidade democrática de sua candidatura e a capacidade de influenciar, sem se contaminar, as articulações que definem quem ele enfrentará em outubro. O xadrez político do Rio em 2026 é, em suma, jogado em tabuleiros simultâneos, com peças que mudam de posição por decisão judicial tanto quanto por negociação de bastidor.